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Maracanã: as boas e más lembranças do futebol brasileiro

© Fernando Frazão/Agência Brasil (Reprodução)

Aos 70 anos, estádio coleciona jogos marcantes da seleção e de clubes


Publicado em 16/06/2020 – 08:00 Por Maurício Costa – Repórter da Rádio Nacional – Rio de Janeiro

“Córner contra o Uruguai no último instante da luta. Terminou o tempo pelo meu Omega e vai agora um córner contra o Uruguai. Há descontos ainda. Cobrou Friaça, cabeceou Jair… marcou o juiz, entretanto, o final da peleja. Terminou o jogo com a vitória do Uruguai. Uruguaios campeões mundiais de futebol de 1950, reconquistando o título que haviam obtido em 1930 e perdido depois para a Itália. Desolação natural da torcida aqui no Estádio do Maracanã”.

Assim foi encerrada a transmissão da primeira derrota do Brasil no Maracanã, na voz de Antônio Cordeiro, pelas ondas da Rádio Nacional. Muitos torcedores até hoje entendem que o Maracanazo jamais foi superado, deixando no “Maior do Mundo” a marca eterna da tragédia.

Injustiça. Aos 70 anos, o Maracanã merece o reconhecimento por ter sido palco de grandes conquistas internacionais por brasileiros. Clubes e seleções mostraram, ao longo da história, que o estádio é sinônimo de vitória.

A começar pelo Santos. Primeiro em 1962, ao derrotar o Benfica, no Rio de Janeiro, por 3 a 2, no jogo de ida da final do Mundial Interclubes – o título foi confirmado em Lisboa, com um 5 a 2 sobre os Encarnados. Depois, em  1963, mas com pitadas de emoção. O Milan, da Itália, jogava pelo empate e vencia por 2 a 0. Sem Pelé, Zito e Calvet, o título mundial estava praticamente na mão dos Rossoneros. Na volta do intervalo, o tempo fechou e o céu limpo deu lugar a um dilúvio. E o Santos virou: 4 a 2, com gols de Pepe (2), Almir Pernambuquinho e Lima. No jogo-desempate, de novo no Maracanã, Dalmo, de pênalti, fez o único gol da partida.

Equipes do Santos e Benfica, minutos antes do início do jogo ida da final do Mundial Interclubes de 1962, no Maracanã – Arquivo Nacional (Reprodução)

Em seu canal no Youtube, Pepe explicou sua relação com o estádio.

“A minha história cresceu nos jogos contra o Milan, no Maracanã. Eu joguei, digamos, umas 300 partidas na Vila Belmiro e umas 20 no Maracanã. Logicamente eu preferia jogar na Vila, mas escolhemos o Rio de Janeiro para enfrentar o Milan, como havíamos escolhido para enfrentar o Benfica no ano anterior. Os cariocas adoravam o Santos Futebol Clube e lotaram o Maracanã para nos ajudar nestas duas conquistas inesquecíveis”.

Em 2000, o Corinthians também conquistou um Mundial no Maracanã. A situação era bem diferente da do Santos, pois jogava fora de casa, mas contra o Vasco, outro time brasileiro e mais conhecedor do estádio. O Timão conseguiu segurar o ímpeto da dupla Romário-Edmundo e, nos pênaltis, após cobrança para fora de Edmundo, o time paulista ergueu a taça.

Os bons momentos da nossa seleção

E a Seleção Brasileira? Será que superou o trauma de 1950, quando Ghiggia calou o Maracanã? Em outro 16 de julho, 30 anos depois, Romário fez o estádio explodir contra o mesmo Uruguai, na final da Copa América O time do contestado técnico Sebastião Lazaroni parecia ter dado fim ao fantasma do Maracanazo.

O “capitão” Ricardo Gomes, logo após o apito final, desabafou em entrevista ao repórter Tino Marcos, da Rede Globo. “É um presente para o pessoal do passado e esperança para a torcida de agora. É uma satisfação trabalhar com esse grupo maravilhoso. Saímos de um clima totalmente adverso, mas com muita união se apresentou uma seleção vitoriosa que vai dar muita coisa para a torcida.”

Ouça na Rádio Nacional

Ricardo Gomes estava certo, pois a Seleção de 1989 foi a base da conquista do tetracampeonato mundial, em 1994, nos Estados Unidos. E por falar nos EUA, como esquecer o Pan-Americano de 2007 e a goleada de 5 a 0 da Seleção Brasileira Feminina sobre as norte-americanas? A derrota na final dos Jogos Olímpicos de Atenas estava entalada na garganta. Mais de 70 mil torcedores lotaram o Maracanã para ver o show com dois gols de Marta, outros dois de Cristiane e mais um de Daniela Alves que falou dessa emoção em depoimento à CBF TV.

“Eu lembro e sempre vou lembrar de todos os detalhes. Em uma quinta-feira, ao meio-dia, mais de 70 mil pessoas no Maracanã. É marcante. Eu tenho uma foto com o estádio lotado. E a gente ficava uma chamando a outra durante o jogo, ficamos impressionadas com o estádio lotado e fazendo a ‘ôla’. Só pra nós. Não tinha o masculino, depois ou antes da gente. Só éramos nós naquela final, e as pessoas foram lá prestigiar. Dentro de casa a final e no Maracanã, um estádio enorme. Foi marcante pra sempre”.

Na semifinal do Pan-Americano no Maracana, as brasileiras golearam as norte-americanas por 5 a 0 – Rafael Ribeiro/CBF/Direitos Reservados (Reprodução)

Ainda em 2007, a Seleção Brasileira Feminina fez história com a segunda colocação na Copa do Mundo da China, após eliminar os Estados Unidos na semifinal com outra goleada, 4 a 0. Na final, perdemos para a Alemanha por 2 a 0.

Os alemães, aliás, também têm boas lembranças do Maracanã. A Copa de 2014 no Brasil chegou embalada pelo título da Copa das Confederações, que a Seleção Brasileira havia conquistado no Maracanã no ano anterior. Mas, no Mundial, o time de Felipão nem pôs os pés no Maraca – foi eliminado nos 7 a 1, no Mineirão, pelos alemães. E o “Mário Filho” serviu de palco para o quarto título deles numa Copa: 1 a 0 sobre a Argentina, na prorrogação.

O Maracanã tentou amenizar a dor dos brasileiros dois anos mais tarde, no reencontro com a torcida em uma nova decisão. Agora, por um título inédito: o dos Jogos Olímpicos, com direito a uma medalha de ouro para o futebol masculino na Rio 2016. Mais uma vez, o Templo do Futebol estava lotado para ver uma seleção desacreditada, com resultados ruins no início do torneio. Depois do empate de 1 a 1 com a Alemanha no tempo normal e na prorrogação, finalmente veio a sonhada vibração: gol de Neymar, de pênalti, vitória do Brasil por 5 a 4.

Nossas vitórias no Maracanã, como a da Copa América de 2019, não vão acabar. E o estádio sempre vai estar de braços abertos para os brasileiros. Que venha a próxima taça.

 

Edição: Sergio du Bocage e Cláudia Soares Rodrigues

Agência Brasil / EBC


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